Imprimindo uma marca, parte 2

Os poucos que leram o meu post anterior (https://v8andvintage.wordpress.com/2017/05/08/imprimindo-uma-marca/) podem ter ficado com dúvida sobre o real propósito de criar uma marca. Acho que aqui não só vou esclarecer como colocar no papel meus pensamentos.

1 – Carros:

Adquiri um conhecimento razoável e participei de alguns projetos que me deram experiência para iniciar os meus próprios de personalização. Quando escrevo personalizar recaio sobre o termo em inglês Bespoke, que traz ao seu empenho a característica básica que não se repetiria em outro projeto.

Eu não fiquei restrito a execução dos projetos, mas também no planejamento de vários deles. Tenho em minha mente os Lessons Learned, onde aprendi muito com os erros do outros. Não é cópia; é aprendizado.

2 – Motos:

Quando mais jovem e durante férias frequentava muito a oficina mecânica do Issa, em Barra de São João, local que só no início levei minha mobilette para manutenção. Depois disso passei a fazer eu mesmo esse trabalho.

Isso não me limitou a ficar nesse mundinho do aro 17″, mas eu aproveitava cada minuto para aprender sobre outras motos. Nesta mesma época acompanhava um colega chamado Douglas, que tinha a sorte de ter algumas motos dos meus sonhos:

  • RD350 1973;
  • GT 250 1972;
  • RD350 1997;
  • K900 1970;
  • CB450 1988.

Mexia dali, fuçava daqui, sonhava acolá. E me diverti muito.

O meu dia a dia é de acompanhar e inspecionar fabricação mecânica, soldagem, montagem, pintura, acabamento, testes, cálculos, emitir relatórios, atender auditorias…mais experiência agregada. E posso levar todo esse conhecimento para a construção de equipamentos personalizados.

3 – Som vintage:

Talvez seja o tema onde teria mais conhecimento mas menos habilidade manual. A curva de aprendizado foi gerada enquanto fui responsável por manutenção de equipamentos inclusive eletrônicos, somado ao que aprendi na Universidade me permitem opinar e fazer as melhores escolhas.

Novo madeiramento, novo acabamento, novos gabinetes, todos recaem sobre fabricação mecânica onde já atuo. No caso de eletrônica pesada, como sempre fiz, passarei para mão de terceiros.

Aliás, taí um mito no ramo da personalização: a terceirização.

Não há espaço hoje para que haja uma horizontalização das atividades empresariais. Em grandes empresas antigas que visitei, muitas delas tiveram ativas um setor de marcenaria onde fabricavam o próprio mobiliário. Hoje isto soa absurdo, considerando a quantidade de fabricantes de mobiliário existentes no mercado de alta qualidade.

Muitos empresários tem a idéia e a capacidade de gerenciar, que por fim terceirizam todas as atividades meio.

Não há nada de mal nisso e não vejo outra alternativa. Contrate os melhores e serás um deles.

Imprimindo uma marca

Alguns sonhos nunca saem da sua cabeça. São eles que te motivam a acordar pela manhã e fazer algo útil, produtivo e deixando um legado. Esse legado é o que me incomoda hoje. E muito.

Há uma palestra carregada no youtube do Mario Sergio Cortella, no qual ele pergunta: se você não existisse, que falta faria? A pergunta ela te induz a uma resposta emocional, onde com certeza a resposta seria direcionada à sua família e seus amigos. Mas não é bem isso que ele quer saber: a resposta deveria ser sobre sua imortalidade de idéias e de atitude.

Eu venho maquinando a muito tempo sobre fazer algo diferente do que faço agora, mas não distante do que já lidei. Quando entrei para Engenharia Mecânica na Universidade Santa Úrsula, meu foco era a industria automotiva donde comecei sendo estagiário do laboratório de motores desta instituição tamanho meu entusiasmo. Depois obtive diplomas da Chevrolet por meio de cursos na Semana de Engenharia. Por mais que queiramos muito uma coisa, tenho certeza de que o destino te empurra para uma lado, não te dá satisfação e também você não percebe que mudou o rumo quase por completo. Sua mente fica dormente e uma cegueira te aplaca quando você começa a ganhar algum dinheiro com isso. Aliás, você sempre considera que deva haver alguma recompensa pleo trabalho realizado.

Essa força foi empurrando, empurrando, empurrando… e foi aflorando uma insatisfação incomoda; e deveria ser assim mesmo. Acredito que a chegada aos 40 anos tornou meu intimo muito mais insatisfeito do que de costume, percebendo que uma vida corria lá fora e aqui, fazia tanto frio. Vida gelada, sem entusiasmo, raros momentos de prazer genuíno. Tocando a vida com uma baseline bem modesta, não havia grandes flutuações de entusiasmo e frustração. Nessas horas, o morno é uma bosta. Não há precaução nem coragem.

Muitos assim querem tocar sua vida, burocrática e sem grandes experiências. Não estou disposto a isso, porque quero ver o por do sol na janela de casa, não na janela do ônibus.

Hoje, baseado nos compromissos que tenho, estou preso a essa realidade de acordar 5:30, botar o macacão, ser burocrático, almoçar, ser burocrático, ir embora 18:15, jantar, ficar com uma cara de idiota frente à tv, ir dormir. Não sou criativo, não sou exigido, não sou destacado, não sou percebido. Isso mexe com o humor, com as relações interpessoais, com a família, com o casamento. Dificilmente há um sorriso.

Qual então seria o meio de mudança prevista, prática e factível? Criar sua própria marca. Produzir e divulgar o seu trabalho, handmade, trabalhar com a função e a estética, lidar com as pessoas, ser estimulado, lidar com o belo e fazer o belo.

Sim, eu posso e sei como fazer.

Sim, eu sei onde e por quanto

Sim, eu sei com quem e aonde.

Mas eu não posso pensar em tocar esse projeto somente quando a vaca for pro brejo. Tenho de arrumar um meio de fazê-lo em paralelo ao que faço, enquanto tenho dinheiro e saúde.

Nada disso vem gratuitamente e nem sem esforço. Requer inclusive muito estudo de como colocar suas criações disponíveis no mercado, de como apresentar uma proposta e de como não cair na tentação de querer ganhar dinheiro no primeiro trabalho. Estudo de Briefing, mercado, publico-alvo, valores e o mais importante, o logotipo.

E alguém quer o meu serviço, minhas idéias e meus produtos nessa crise que vivemos? Sinceramente não sei. Não são gêneros de necessidade mas também não são de luxo. Em uma economia pujante com certeza eu teria clientes. Agora, só dúvidas.

Até agora isso me custou algumas horas de conexão de internet, já pagas e sem franquia. Tá barato.

Dirigindo pro evento do Nichteroy – abril 2017

Não existe nada pior do que ficar com o carro sem dirigir por um período de tempo. Tudo parece pior, o freio agarra, o injetor engasga, a porta demora a abrir, o pneu fica quadrado…que merda.

Mas eu tive de me forçar a abrir um espaço na agenda para ligar, dirigir e gastar um pouco da gasolina podium no tanque. Fazer os fluidos circularem diminuem o envelhecimento.

Eu acho que estou envelhecendo mais rápido do que o tempo passa.

Precisamos nos movimentar. Eu e o Dodge.

A câmera é do celular, o suporte é do GPS e não usei microfone externo. Quem achar chato avance para o último minuto do vídeo.

Evento do Nictheroy – Abril de 2017

O relógio passa e você não percebe. Faziam 4 meses que não andava com o meu carro. Fazia 1 mês que não voltava pra casa. Fazia muito tempo que não ligava o Dodge.

E isso se torna um problema. Ter um carro e não poder usar te traz mais problemas que economia de dinheiro. Eis que surge uma pergunta: porquê não posso usar?

A resposta é simples: porque não estou próximo a ele e não posso viajar o tempo todo. Sai caro, muito caro mesmo com um carro 1.0 e procurando os postos de combustível com preço mais baixo, mas não me permitindo abastecer com produto duvidoso.

Se eu voltasse pra casa todos os finais de semana, custaria no mínimo R$600,00/mês. Imagine como esse dinheiro poderia ser revertido?

  • Em 2 meses compraria uma quadrijet;
  • Por mês teria um bom receiver vintage;
  • De 3 a 4 jantares em um bom restaurante;
  • A cada 20 dias encheria o tanque do Dodge de gasolina pódium.

Não é questão de ser muquirana. É pensar nas prioridades.

Mas mesmo assim sobrevivo e tento me divertir com o que há. Por isso forcei a minha própria barra em ir ao evento, não esperando encontrar ninguém sequer fazer compras no Sam´s Club. Ainda sim vale à pena.

 

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Babando na gravata (ou como sonhar com uma outra realidade)

A realidade é essa: vivemos num pais de terceiro mundo. Me parece que nós estamos satisfeitos com nossa condição social, econômica e ética, onde cada um espera pelo outro.

Tudo bem se o empresário reclama das altas taxas pagas nos bancos, se a carga tributária é extorsiva e se o nosso mercado não serve para principiantes. Mas, definitivamente, ele não gosta muito de eficiência. Não cobrar por resultados com funcionários que não sabem como melhorá-los também não leva a nenhum êxito.

O empresariado também não quer se arriscar em nada, pois é óbvio que o retorno em pagar propina é muito maior do que o patrocínio. Mas ele não vai assumir essa posição, pois se há algo que ainda existe e está ficando mais raro é a hierarquia.

Aonde quero chegar? No ponto mestre desta revista.

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Um colega de trabalho natural da Austalia, John Nelson, se juntou ao grupo de trabalho aqui onde estamos no momento. Um determinado dia, no trajeto entre o condomínio e o estaleiro, conversávamos sobre muscle cars e hot rods, quando abordei sobre a revista FUEL, editada em sua terra natal. Ele prontamente intervém: “Tell me the name of this mag and I´ll ask my broher-in-law to buy some issues”. Neste mesmo dia ele disse que seu cunhado conseguiu 4 exemplares e eu, claro, me controlei para não soltar fogos dentro do escritório.

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Essa publicação bimensal australiana é soberba nos temas, nas fotos, na edição e no material. Aqui em nosso país talvez publicações deste naipe sejam as ligadas a relojoaria (como a Pulso) e as relacionadas a decoração e náutica. Fica óbvio que é possível e há consumidor de outros nichos não tão requintados que querem que seus artigos estejam estampados em publicações mais esmeradas, mais caprichadas.

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Um exemplo do que escrevo remete a uma revista de hot dos brasileira que, não somente é cara como também é mal escrita e mal diagramada. Se está disposto a pagar mais de R$14,00 por uma publicação, espera-se qualidade no conteúdo e no mínimo capricho.

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Retomando…por uma cagada dele mesmo (do crocodilo dundee, digo), seu retorno ao Brasil depois do home leave (retorno para descanso aos expatriados para sua residência) foi adiado devido ao visto de entrada em nosso país.

Pois ontem, meio-acordado-meio-dormindo, ele se senta ao meu lado no ônibus, me cumprimenta e diz:

“Hey buddy. I brough your mags, but I left on apartment because my bag is full of stuffs…”

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Hoje, já sentado em minha mesa, o dito cujo trouxe 4 exemplares (20 a 23) da tal revista. A sensação foi uma mistura de gratificação (por ele ter sido tão empenhado) e de indignação (por não poder comprar diretamente no Brasil). Hoje mesmo retribuirei o presente com uma bela cachaça mineira.

E não sei se guardo no cofre ou no deixo no meu altar particular…

Packard de cortejo

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Faz uma semana que, enquanto dirigia com minha esposa no caminho a um restaurante, visualizei esse carro estacionado em uma na via de acesso à BR-101. Do ponto que estava e pelo motivo de estar dirigindo, só havia percebido que o seu porte e jeito eram prá lá de exóticos.

Acontece que, por ter sido muito rápida minha passagem, vários detalhes se perderam e eu então imaginei que o carro era uma adaptação para lanchonete, como havia visto uma vez no Hard Rock Café com um Cadillac.

Mas uma lanchonete não tem uma cruz no teto.

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Ao retornar ao mesmo local no sábado 17, percebi que era um carro fúnebre. Eu particularmente não tenho muitos problemas em lidar com a morte (como cemitério e tal) mas o estado geral do carro, com os roletes enferrujados da mesa, com balaustrada e teto cobrindo o caixão, me arrepiou um pouco.

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Tudo indica que esse carro foi transformado em carro de cortejo fora do Brasil. A engenharia (???) adotada, os recursos utilizados para alongamento de aproximadamente 10 metros e a decoração típica não são características nossas.

Não há qualquer indicação de modelo, fabricante da adaptação, origem, nada. O motor já não está mais lá – provavelmente fundiu – alguém instalou um motor provisório até que fosse determinada sua aposentadoria.

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Pelo que pude perceber o carro originalmente é um cupê 52, com corpo alongado, tendo o seu extremo adaptado do mesmo carro. Como não consegui reconhecer naquele momento, minhas pesquisas mostraram que era do mesmo carro mas com as lanternas traseiras substituídas por um outro modelo.

Não sei quem trouxe, quantos cortejos participou.

Não sei nada.

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Quem dirigiu esse carro?

Quem foi levado nele?

A que funerária serviu?

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O seu interior parece bem original e apresenta o seletor de marchas automático. Não há corrosão que comprometa o seu funcionamento, mas não pude inspecionar melhor como andam as longarinas e as travessas, que permitiriam a movimentação do carro por conta própria.

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Talvez a proposta para esse carro seja mantê-lo do jeito que está, colocar um motor e participar de eventos especiais, pois o seu tamanho não permite entrar em qualquer pátio e seu tema pode repelir muitas pessoas do lugar.

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Pelo que posso perceber o carro foi parcialmente depenado servindo como doador de peças. Não são tão difíceis de achar, ainda se considerar que ele não é mais um Packard original faz muito tempo.

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Esse Packard está a venda como indica a foto com o número de telefone. Para quem não tem receio nem acredita que um espírito pode puxar o seu pé durante o sono, é um carro bem exótico para comprar.