Pelikan M120, revisada.

Faz muito, mas muito tempo que não uso uma caneta tinteiro. Não poderia me dar ao luxo de trabalhar em um lugar sujo, perigoso e com risco de cair n’agua usando uma tinteiro. Usei as canetas BIC, sem opção de escolha.

Assim que retornei ao Rio, levei esta M120 para revisão. Eu havia em um certo momento tentado utilizá-la, mas foi infrutífero. A bomba não parecia em ordem, pois não enchia uma gota sequer de tinta.

Pelikan M120

Aqui o meu salvador é o Seu Josias, do amigo das canetas (oamigodascanetas.blogspot.com), que, ao chegar em sua sala já foi me perguntando: “O que houve com a Pelikan?” Eu disse que não conseguia encher e a resposta foi imediata:

“Alguém encheu com tinta Nankim!”

A carapuça não me serviria porque não fiz nada nela a não ser comprar. “Quem fez isso 3 vezes mesmo com minha reprovação foi o Edu Lobo!”, acrescentou ele. A tinta Nankim deixa resíduos que pode comprometer a bomba.

Para minha sorte foi feita somente uma limpeza e ajuste na pena para que voltasse à vida.

Melhor assim.

Mais de um projeto simultaneamente

Li recentemente que nosso cérebro não realiza mais de uma tarefa simultaneamente. Ela se desliga de uma função, parte para outra e retorna assim que for demandado.

As suas tarefas podem ser administradas por você, mas executadas por outros. É possível ter ao mesmo tempo o seu TAG Heuer Monaco no relojoeiro em revisão, sua Waterman Caréne fazendo uma limpeza nos seus internos e seu Mustang Mach I revisando freios e suspensão. São pessoas especializadas, empresas que tem uma tradição na manutenção, revisão e restauração, além do tempo necessário para realizar suas atividades.

Você não tem tempo para isso tudo, a não ser que seja um restaurador profissional. Seu dia de pegar ônibus, almoçar perto do trabalho, voltar para casa enfrentando congestionamento limitam sua agenda para que eventuais “fugidas” aconteçam sem comprometer o seu emprego principal.

Mais uma vez, você tem de parar uma coisa para fazer outra.

Eventualmente é necessário encaminhar seu projeto para alguém que não está anotado no seu caderninho de profissionais. Nele você demanda tempo para ensinar o que fazer, ensinar onde comprar os componentes, ensinar como deve entregar, mas não precisa ensinar como pagar pelo serviço. Ultimamente tem sido muito difícil encontrar novos profissionais para fazer o que você precisa. Todos querem serviço fácil, entra e sai rápido, paga rápido, entra outro rápido. Rápido é o nome. Barato nem sempre acontece.

Recentemente ouvi que a pintura de um carro antigo, realizado por profissional qualificado, pode sair por mais de R$20.000,00. Pela falta de profissionais dispostos a pegar esse tipo de serviço, quem topa pede o que quer. Lei de oferta e demanda.

Se você não está satisfeito com o preço, faça você mesmo.

Não sabe? Matricule-se em um curso técnico, assista aulas por 12 meses e saia com um diploma. Profissional você ainda não é. Compre todas as ferramentas necessárias, arrume um lugar adequado e que você possa chamar de seu. Nada de pedir emprestado!

Se o projeto está em andamento e você mal consegue terminar, porque começar outro? Por que a oportunidade de comprar aquele receiver vintage, um Opala 250s ou outra caneta tinteiro e manter na sua coleção, pensando na disponibilidade do profissional para o futuro, compensam o tempo no estaleiro.

Eu, pessoalmente falando, sou “bicho-carpinteiro” mesmo, penso em vários projetos simultaneamente e fico estressado quando não há progresso. Mas entendo que se não houve progresso, há um bom motivo para isso.

 

Retomando a rotina de viagens

Retomando o tema de alguns posts atrás, falei que a rotina poderia ser benéfica por te permitir utilizar aquele relógio preferido, a caneta tinteiro que você mais gosta, ouvir o seu LP recém garimpado no seu toca-discos e receiver vintage e ainda, andar no seu carro antigo. Mas você faz muitas escolhas para sua vida e para sua carreira consecutivamente. E não reclame, pois a situação de hoje, se não é boa para os seus padrões, poderia ser pior.

Enquanto morei em Belo Horizonte, sentia saudades de algumas das minhas coisas pessoais, como meus lp´s, meu carro, meu som, sendo de uma certa forma “substituídos” por outros itens, como as canetas e relógios.

No entanto, quando era necessário viajar por conta do emprego, tinha de deixar tudo aquilo que gostava, pois o lugar não era “saudável” para usá-los; pelo contrário, perfeito para perder ou danificar sua caneta ou relógio.

Agora que retornei ao Rio de Janeiro, consigo desfrutar tudo que possuo e até me dar ao luxo de escolher: hoje será Festina + Pelikan, amanhã será Parker + Rado. Isso somente é possível se eu me mantivesse trabalhando somente no escritório, almoçando no restaurante predileto, pegando ônibus com ar-condicionado, sem suar uma única gota.

Engano meu.

Estou nesse momento postando meu status, depois de subir 10 lances de escada com mochila nas costas, me equilibrando nos degraus mais curtos que meu pé (calço 44), batendo meus braços e mãos no guarda-corpo do navio, esbarrando meus ombros em escadas de andaimes. Você imagina tudo isso no calor inclemente do nosso Estado, que faz mais de 1 mês que não desce para menos de 35 graus?

Não há elegância, beleza e roupas que resistam a tamanho calor e esforço do dia-a-dia. Cabelos penteados usando capacete? Impossível. Macacão limpo e passado? Difícil. Usar sua Montblanc e vestir seu Jacques Lemans? Só se eu fosse tonto…

Mas eu escolhi essa vida; e escolhi também ter as canetas, o som, o carro, o relógio, a câmera…O que eu devo é controlar a ansiedade e a frustração de me sentir impedido do uso. Essa é a armadilha do seu próprio cérebro, criada por você, que somente você saberá como sair.

Ao menos aqui é possível tirar belas fotografias.

Você como adulto sabe que suas escolhas te levam a alguns caminhos nem sempre desejados. Derrota pode ser um opção sua, abdicar da sua vida tranquila também. Não existe emprego bem remunerado sem que haja uma dose de estresse, reponsabilidades assumidas, tomadas difíceis de decisão e noites mal dormidas. Isso tudo acontece de forma gradual e demanda tempo para acontecer intensamente. Quanto maior a remuneração pelo seu trabalho, mas exigente será o contraparte. Quanto mais exigente ele for, mais estresse você sofrerá. Quanto mais estresse você estiver submetido, talvez você seja remunerado justamente. Somente chamaremos de ciclo se a última etapa coincidir com a primeira. A palavra “talvez” te estressa e provavelmente não te remunera.

Se deseja ganhar dinheiro com o suor dos outros e sem esforço algum, compre e administre uma sauna.

Ou seja um miliciano.

Ou tenha um pai rico na próxima encarnação.

Ou faça voto de pobreza, porque tudo que você quer é incompatível com a vida que levará.

Montblanc Meisterstück 146 fountain pen (circa 1949)

Essa aquisição foi feita fazem aproximadamente 6 meses, tendo dificuldade de fotografar e tirar fotos devido ao tempo necessário para dedicar ao post. Como sentia que havia essa dívida com meus 12 leitores, tirei a foto com o blackberry mesmo, à noite e sem recurso técnico.

Montblanc Meisterstuck 001

Ela foi adquirida em um antiquário de Copacabana, um dos poucos que vendem canetas tinteiro e em bom estado de conservação. O valor foi cheio, sem descontos. O senhor que me atendeu, provavelmente o dono da loja aparentava 90 anos: se não tiver essa idade, considero que o tempo foi muito cruel com ele…

Lá haviam Parker, Conklin, Sheaffer, outras Pelikan e algumas Cross. Mas fiquei surpreso que lá havia uma caneta alemã, o qual não reconheci sua marca, ostentava um símbolo proibido desde o governo de Getúlio Vargas. Em visitas anteriores à compra, a senhora que me atendia me oferecia essa caneta a um preço razoavelmente baixo, muito provavelmente às recorrentes recusas de compra por eventuais clientes. Um desavisado poderia ser preso se uma autoridade com o mínimo de conhecimento (ou judeu) visse portando-a ou mostrando a alguém.

Montblanc Meisterstuck 002

Ela não era a única que havia lá, havendo outras 5 mais. Minha escolha se baseou no estado de conservação e na sua idade aparente.

Montblanc Meisterstuck 003

O celuloide apresenta o amarelamento típico da idade. Se é velho, eu quero. Não basta parecer velho…

Montblanc Meisterstuck 004

Sim, ele tem marcas de uso. Mas itens como esse imaculadamente apresentados não me motivam. Eu sempre penso quem usou, quanto usou, quando usou, quanto sofreu, porque foi parar ali…

Montblanc Meisterstuck 005

Se eu te disser que a Montblanc é minha marca favorita, estou enganando. Cada uma delas tem um atrativo diferente, em que muitas vezes a história é mais importante que o desenho ou a ergonomia. Na maioria das vezes o departamento de marketing é mais poderoso (se não competente) que o setor de projetos, induzindo a massa para uma aquisição sem atributos visíveis e palpáveis. Ou seja, qualidade percebida.

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Pena em excelente estado, escrita fina.

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Essas marcas é que me atraem!

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Quando foi testar as Pelikan M120 e M140, aproveitei para limpar os internos da Montblanc. O sistema de enchimento funcionou perfeitamente e sua pena não arranhava. Ela será a próxima a ser carregada e posta em funcionamento.

Foto ensaio (Photoessay)

Tenho lido muito nesses últimos dias, diversas fontes tem me apresentado novas idéias e minha cabeça tem andado muito longe.

Naqueles momentos em que você não tem planejado o que fazer, o nível de ansiedade aumenta e o sentimento de que você poderia estar fazendo algo de útil vem à tona. Vários projetos são cogitados porque várias coisas te agradam. Nesses momentos a sensação de perda de tempo é muito grande e a vontade de mudar tudo radicalmente pode vir sem controle.

Livros e revistas são uma excelente fonte de inspiração para essas tais projetos. A internet, com todas as suas bobagens, também o é. Sua vantagem é a praticidade e o meio organizado o qual se apresenta. As criticas são um tanto “escondidas”, pois nele é possível filtrar eventuais ofensores e bestas dos mais diversos gêneros. Mas como qualquer site é um meio aberto, prefiro traçar uma linha de raciocínio e criticidade próprias.

Sempre quis utilizar a câmera para registrar temas pré-definidos que são do meu agrado. Paisagens urbanas e rurais, carros e motos antigas e arquitetura me agradam e me fazem idealizar como fotografar de modo próprio, com minhas características impressas na imagem. Não querer ser igual aos outros sempre fez parte da minha vida; mas como ser diferente sem antes ser igual? A tal criticidade é apurada com o aprendizado forçado ou natural e, mesmo querendo fazer algo novo, tenho de perder alguns filmes com “muito da mesma coisa”. Observar e discutir são as ferramentas imprescindíveis para a minha evolução. Mesmo o erro me faz aprender. Obvio…

Não tenho contato com galeristas, com artistas (exceto músicos) e expositores que concentrem as idéias e a materialização delas nos meios que se propõem trabalhar. Preciso participar mais desses eventos, um tanto dispersos e também elitistas, mas nada que um ENGOV ou Omeprazol não me ajudem. Entender o Pierre Verger, Helmut Newton e Annie Leibovitz não ser resume a “olhar” a obra; requer também que alguém me ajude a “entender” o que ele quis dizer. Os críticos dos iniciantes sempre dizem que o público deve sempre assimilar o conteúdo sem a colocação de uma legenda. Talvez isso se deva a uma falta de fio condutor nítido e consistente que te indiquem o início e o fim da historia/estória.

O Foto ensaio entra nesse contexto. É a tentativa de discorrer uma linha de pensamento ou opinião sobre um tema específico. Se é sobre a degradação do casarios do centro, vá à região portuária; se é para mostrar a pujança americana da década de 50, vá a uma exposição de carros antigos ou a um show aéreo. Mas quantos temas já não foram exaustivamente tratados, como a favela, pobreza do sertão, futebol de várzea, vida no campo, degradação social, farra de músicos após um show… Vamos sair do lugar comum! Se é para levar a mensagem e a reflexão, que tentemos um olhar novo, que coloquemos nossos “vícios” de linguagem e nossas impressões particulares, que leve o tempo que quiser, que seja subjetivo ou na primeira pessoa do singular.

Características mínimas impostas por mim em um ensaio:

  • Ser de filme, a ser escolhido no momento do ensaio;
  • Levar o tempo que for necessário;
  • Câmera com poucos recursos, misturando formatos;
  • Estudar ao máximo a luz do lugar, adaptando com as limitações do equipamento;
  • Imprimir em um estúdio com qualidade.

Quando vou começar? Não sei.

Quanto tempo levarei? Não sei.

Qual tema farei? Não sei.

O vento me guiará.

Usando a Pelikan M140

O tema canetas não aparece aqui no blog faz um bom tempo. Isso não se deve ao fato de ter novidades; muito pelo contrário. O fato se deve de ter um momento mais tranquilo para tirar fotos e escrever sobre minhas experiências.

A M140 foi adquirida a aproximadamente 8 meses em um antiquário no RJ. Fiz uma compra casada com a M120 para que o desconto final fosse melhor. Dentre 4 Pelikan oferecidas, essas foram as que mais me agradaram.

Exato 1 mês atrás decidi utilizar (ou tentar sem revisar) as canetas que estavam no estojo aguardando por uma decisão minha. Busquei então as duas para fazer uma limpeza e tentar carrega-las com a tinta Waterman que tenho em casa.

Quando comecei a tentar limpara a M120, percebi que o sistema de pistão não estava funcionando, ou seja, sugando a água para limpeza. Não pensei 2 vezes e deixei-a de lado. Já na M140, o sistema respondia aos estímulos, sugando água limpa e descarregando com parte da tinta seca diluída do seu interior.

Cansativo; muito cansativo.

Gire no sentido horário e anti-horário um cap sem pega, escorregando por causa da água, por 20 minutos, e você perceberá que existem alguns músculos que não utiliza faz muito tempo.

Pelikan_M140_0005

Quando conciliei o cansaço com a água descarregada mais limpa, iniciei o carregamento com a tinta verde.

Até aí, nada demais. O problema foi o dia seguinte.

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O sistema interno tem alta capacidade de carregar tinta, mas não está retendo como deve. Ou seja, está vazando quando em repouso.

Não posso reclamar do problema porque é uma caneta antiga e não foi revisada. Tentei utilizá-la por minha conta e risco, tendo que eventualmente limpar algumas manchas e sujeira nas mãos. Tem como grande ponto positivo ser leve associado ao seu tamanho diminuto. Você carrega no bolso da camisa e não sente o peso (se não manchar…).

Ela possui alguns desgastes naturais pela idade, como os 2 anéis da foto e um encolhimento na tampa (hard rubber).

Pelikan_M140_0004

A sua escrita não é macia como esperava, mais provavelmente por causa de sua pena desgastada e desregulada para um canhoto.

Nota: o canhoto empurra a pena contra o papel quando escreve. Assim, ela deve ter uma pequena inclinação na sua ponta para evitar aranhões.

Esses problemas serão corrigidos não imediatamente. Prefiro pegar a Esterbrook, a Pelikan M120 ou a Montblanc Meisterstuck para revisar e colocar em uso. Eu sei que essa funciona (precariamente) e não entrará na lista imediata de recuperação.

Vai adormecer no seu berço por um longo tempo.