Um “Big Abraço” para você.

“Olá meu querido, tudo bem?”. Foi assim que atendeu o Rui Fernando quando nos falamos ao telefone pela primeira vez. Aquela forma carinhosa, mesmo para alguém que nunca havia conversado pessoalmente mas somente pode posts no HT Fórum, o tornava diferente.

Naquela época quando frequentava o fórum acima citado, vi uma postagem do Rui onde ele doava um aparelho, a ser retirado em sua oficina, pois ele não tinha mais interesse em restaurar e achava melhor passar adiante. Não era nada mais nada menos que um gravador de rolo Sony TC-377-4, um monstro que não poderia ser qualquer um a transportar. Negociamos o meio indicado por ele mesmo, que cuidadosamente embalou para mim e enviou conforme combinamos, frete pago ao receber.

Não é algo comum alguém se desfazer de algo ainda em bom estado e para uma pessoa que não conhecia. Da mesma forma surpreende a forma que ele conversava comigo ao telefone, parecendo que éramos amigos desde a infância. Talvez o medo dos relacionamentos não fizesse parte da sua vida, pois tempos depois percebi que ele era assim com todos ao seu redor.

Alguns anos depois vim reencontrá-lo no Facebook, assim como passei a me relacionar mais de perto com aqueles os quais só lia, como Holbein Menezes e Ricardo Labuto Gondim (do Logos Eletrônico), um mar de conhecimento que se abria a minha frente e que eu, no meu pouco experimentar, me resumia a assistir de camarote com pipoca e guaraná.

O que mais me encantava era a facilidade de expor o conhecimento, independente da hora, do assunto e do humor, que ele nunca – AFIRMO NUNCA! – tinha um momento de rispidez em suas respostas. Um jeito sempre carinhoso a conversar com todos, terminando sempre com um BIG ABRAÇO suas postagens o tornava um paizão do áudio, onde todos poderiam absorver o seu conhecimento e que não era cobrado nada em troca.

Uma das pessoas mais caridosas que conheci.

Neste sábado, ao entrar no facebook no meio da noite percebi que haviam algumas postagens com um conteúdo estranho, não muito claro, que indicava que algo havia acontecido com ele. Escrevi imediatamente pro Flavio Furtado, v8eiro de carteira, audiófilo e meu chapa desde o Biela Quente, que também ficou em dúvida. Depois de alguns minutos, com algumas poucas mensagens a seguir, deixavam claro que o Rui havia falecido. Retornei a informação do Flavio, que com toda certeza ficou consternado e avisei também ao Guto Pereira, chapa da época do CCVTD (Clube Carioca do Vinil e Toca-Discos).

Neste momento eu caio em um sentimento de que, ao máximo possível, você deve estar próximo daqueles de quem você estima e que deveria se dedicar um tempo para passar com eles. Neste isolacionismo que fui submetido desde setembro, onde trabalho longe de onde nasci, moro fora de meu domicilio, deixo tudo que tenho pra trás e fico trancafiado 50 horas por semana em um estaleiro, o meu sistema de recompensa não contabiliza e acusa sempre um débito. A médio prazo não há qualquer possibilidade de que isso mude, pois a previsão é de que estejamos neste estado até setembro.

Você pensaria se compensa todo esse estresse por causa do trabalho. A reposta é simples: não há outro lugar onde possa ir. Jogar pro alto esta ocupação é como jogar pro alto toda uma carreira. Pior do que isso é perceber que não há como formar amizades neste ambiente, pois os interesses percebidos aos outros fora do ambiente do trabalho não cabem naquilo que entendo como ético. Não sou politico e essa não é uma habilidade que quero desenvolver. Não sou idiota em não perceber o que ocorre ao meu redor. Me mantenho quieto e toco meu serviço

Passei quase 1 ano viajando a São Paulo, ficando 5 de 7 dias longe de casa e sozinho. O que poderia fazer para me ocupar? Conhecer os lugares e as pessoas. Visitei a Fazenda Ipanema, o Box 54, Lucky Friends, encontrei meu ex-chefe…

…mas não visitei o Rui.

Escrevi para ele me desculpando e prometia em uma outra oportunidade uma visita. Não poderia ser aquela visita rápida; tinha de demorar, porque sabia que tínhamos muito a compartilhar.

Mas não deu tempo.

O que me resta agora? Pensar e pensar como estou levando minha vida, como levo minha alimentação, abstrair do cansaço e buscar as coisas mais belas nos menores ramos de mato,

e

desejar aquele BIG ABRAÇO como ele sempre fazia.

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4 opiniões sobre “Um “Big Abraço” para você.

  1. Grecchi,

    De fato era uma pessoa fantástica. Fiquei muito chateado, lamento muito pelos familiares, a perda foi muito maior. O tempo, como sempre, se encarregará de colocar tudo no lugar.

    Meu desejo neste momento é que ele esteja ouvindo música “ao vivo”, já que aqui, no máximo, a gente o faz através do vinil. rsrsrs

    Big abraço!

  2. Belo texto, lembrou um fato da minha infância. Lembro que um dia meu pai perguntou se queria que ele escrevesse a letra de uma musica que ele cantava, eu disse que não precisava que depois ele poderia escrever, não deu tempo.

  3. Caramba! Soube agora justamente ao procurar noticias do Rui. Trocamos muitas mensagens na extinta lista Audionews do Holbein Menezes e ainda tinha esperança dele um dia dar uma geral no meu Marantz 4400.
    Um grande ser humano se foi. Uma das pessoas mais gentis que já conheci pela Internet. Que descanse em paz. 😦

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