Lembrança de um familiar – Navalha Fain Looking

Algumas coisas na vida são curiosas pela forma como vem e como vão. Não são as excepcionais, mas as mais singelas, as mais simples que fazem retomar lembranças.

Já havia escrito no blog sobre minhas lembranças de infância e sobre como tudo me afetou como pessoa que sou hoje. Muitas foram as situações que não percebi terem acontecido, mas entraram em minha mente e acrescentaram um grão em minha personalidade.

Eu sou o temporão da família por parte de pai, estando 9 anos distante da segunda mais nova, que é minha irmã. Todos os meus primos são mais velhos e somente um deles teve filho, Lucas, meu afilhado também. Portanto, em reuniões de família, eu tinha de ser um pouco adulto para que pudesse participar de alguma forma, sendo muito mais difícil alguém se torna criança para brincar comigo.

As reuniões que aconteciam com razoável frequência na casa de minha tia em Petrópolis ou na da minha avó em Botafogo contava com a presença de alguns parentes mais próximos socialmente falando. Porque de presença física, tínhamos uma pessoa que sequer aparecia ou conversava com os presentes.

Antonio Grecchi 1

Meu tio Tonico. Uma pessoa a qual não tive sequer 30 segundos de conversa com ele. Qualquer pessoa que entrasse na casa de minha avó (meu avô já era falecido), se tivesse a porta aberta por ele recebia um “Oba” como cumprimento, sendo manhã, tarde ou noite. Em um único momento tive um contato mais próximo com ele quando meu pai pediu para mostrar a medalha da Força Expedicionária Brasileira.

Tendo servido ao exército na Segunda Guerra Mundial, trabalhando como mecânico de viaturas (ou algo mais que aparecece), voltou ao Brasil com uma característica ainda mais profunda: a introspecção.

Antonio Grecchi 2

Eu o chamo de tio por ter sido irmão de meu pai. Mas ele nunca foi presente na minha vida, tendo certeza de que foi muito pouco na dos outros primos, independente da quantidade de vezes que visitassem minha avó. Claro, o motivo para visita não era ele.

Muitas vezes me perguntei qual era o sentido da vida para ele. Fumar cigarro Continental sem filtro, assistindo “Show de calouros” em uma TV preto-e-branco, tomar café fervido, andar pela vila onde morava…eu, nos dias atuais, posso achar isso muito pouco. Talvez isso fosse o bastante para ele.

Vaidade talvez fosse mais ligada à higiene do que a vontade de paquerar alguém. nunca soubemos que ele tivesse tido algum relacionamento amoroso. O que não o invalida como homem, not at all!.

Falecendo a aproximadamente 1 mês atrás, meu pai e primos estiveram em sua casa para buscar algumas coisas pessoais que, por motivos pessoais, eram mandatórios serem recolhidos e guardados.

De lá sairam vários itens pessoais, como carteira de trabalho, certificados, carteiras pessoais, isqueiro, fotos e uma navalha.

Fain Looking 1

Essa navalha encontrada em partes é uma Fain Looking americana, lâmina 5/8, ponta circular, fio hollow grind e em sua caixa original. Conversando com meu pai, ele desejou que fosse recuperada para guardá-la como recordação. Nesta mesma conversa falei que era possível pois no RJ ainda existem lojas que afiam navalha, quando preciso, recuperam também.

Encaminhada à Cutelaria e Bazar Tiradentes, na Praça Tiradentes 25 – Centro – RJ, os senhores que me atenderam disseram ser possível a recuperação, pois bastava somente colocar os pinos da bainha e afiá-la como de sempre.

Depois de uma semana, retornei e busquei-a conforme abaixo:

Fain Looking 2

Afiada como deveria ser, sua bainha de baquelite foi remontada sem apresentar trincas como era de esperar. Assim, retornei com mais um item recuperado.

Fain Looking 3

Não há qualquer indicação da fabricação da lâmina, se Solingen ou de outra procedência. Eu sei que tentei fazer minha barba com ela e não fui bem sucedido – mas também não me cortei!

Antes da devolução ao herdeiro (meu pai) conversamos sobre ela e ele disse que provavelmente era de seu pai, e não do seu irmão devido a idade. Estimamos que possua no mínimo 60 anos, pois sua bainha é de Baquelite, sendo um dos primeiros plásticos produzidos. Sua cor preta é o maior indicativo.

Ricciotti Grecchi

Independente de quem era, se do meu tio ou do meu avô, fazemos bem manter suas recordações em um bom lugar

Mesmo que não tenha convivido.

 

 

 

 

 

Anúncios

Uma opinião sobre “Lembrança de um familiar – Navalha Fain Looking

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s