Diálogo

– Ei, rapaz! Ei Jão!

– O, o ,o…oi cara! Que surpresa!

-Pois é. Estou aqui novamente

– Que saudades. Veio me visitar?

– É. Correria o tempo todo. Mal tenho tempo de conversar. Minha agenda está mais apertada de que de político em eleição.

– E você dá atenção mais aos outro do que a mim…

– Por isso estou aqui. Acho que negligenciei você.

– Jura? Nem tinha percebido. Para você ver: os faxineiros daqui é que vem conversar comigo. Na hora do almoço, eles vem tirar um cochilo aqui do meu lado.

– Eu sei que estou te devendo uma saída…

– É…caneta prum lado, som pro outro… Você é capaz de passar na minha frente e nem pra me acenar!

– Por isso eu to aqui. Vamos sair?

– Tá de sacanagem? Sair? Criou coragem?

– Não, na verdade to fazendo justiça. Tá com energia pra isso?

– E eu já te deixei na mão por falta de energia?

– Sinceramente não lembro!

– Nunca! O que estou é meio pigarreado. Mas acho que é o frio que tomo aqui.

– Topas sair na chuva?

– Topo. Maratona não é cancelada por mau tempo, não é?

– Tem razão. Mas dá a impressão que só te meto em furada.

– Ligo não. Sou de aço.

 

                Então decidimos sair, um tanto errático para dar mais prazer. Ele começa a pigarrear e decido não apertar o ritmo. Como calma chegaremos longe.

 – Vamos parar aqui no posto? Precisamos dar uma calibrada.

– Claro.

– Que saudades de andar na rua. Estou me sentindo melhor mesmo na chuva.

– Você parece um cachorro preso num apartamento…

– Eu te chamo pro passeio, mas você nem tchun!

– Vamos até a Icauto visitar o Marcus? Tenho certeza que ele também está com saudade de você.

– E vice-versa!

 

                Passam 15 minutos, enfrentamos um pequeno transito e, ao chegarmos na oficina, as portas estão cerradas. Pensei que era por ser muito cedo. Ou seria porque tinha viajado?

                Procurei o seu número no telefone, mas lembrei que tinha ficado salvo no meu antigo Nextel. Então ficará pra depois.

– O que que a gente faz agora?

– Vamos andar. Não era isso que tu queria?

– Sim!

                Começamos a andar pelo bairro. Curiosamente, apesar da chuva insistente, víamos muitos pedestres nesta manhã. E mesmo assim muito viravam os seus olhos pro Jão. Sua cor chama atenção a qualquer hora, seu porte intimida, sua voz nítida e rouca seduz a homens e mulheres.

– Como andar na rua me faz bem! Estava pigarreando até 5 minutos atrás e agora nada. O frio e o transito não me fizeram subir a temperatura. Acho que a brisa do mar me faz bem.

– Curioso como o psicológico é. Basta ver o sol que todos os nossos problemas se esvaem…

– E a companhia também ajuda!

– Sem dúvida. Matando saudades.

– Será que alguém entenderia nossa conversa? Pareceria estranho pro outros.

– Para os pobres de espírito. Você hoje faz parte da minha vida. Posso não te dar a atenção devida, mas você está no meu coração. Quando vejo um vídeo no youtube que te lembra, me emociono. Lembro dos momentos que passamos e de sua eterna disponibilidade.

– Espero que você nunca me troque por outro!

– Difícil de dizer, mas acho que está fora de cogitação. Poderia até vir outro, mas você nunca iria embora. Lembra quando fiz uma brincadeira por e-mail, dizendo que tinha te trocado por outro?

– Lembro! E teu sobrinho caiu como um patinho, coitado!

– Não foi só ele não! Vários amigos também caíram. No fim todos acharam graça da situação!

 

                Com o tempo chuvoso decidimos voltar pra casa. A voltinha pela cidade foi boa para ambos. Matar a saudade do lugar, das pessoas e da companhia tão nobre.

– Chegamos. Satisfeito?

– Muito. Era isso que eu queria!

– Bom, tô indo pra casa. Vou almoçar e descansar um pouco pois hoje tenho um batizado para ir.

– Bem que eu poderia ir contigo…

– Fica pra próxima.

– Ok. Promete não ficar tanto tempo sem me ver?

– Farei um esforço. Mas onde estiver não esquecerei de você nunca. Aliás, tenho uma foto no meu quarto que está você, meu pai e meu sobrinho. A mais bela foto que já tirei.

– Eu sei. Você já falou dela.

– Fica bem?

– Fico sim. Tem muita gente me vigiando, a meu favor.

– Um abraço!

– Um abraço e um beijo na esposa!

-Dou sim!

 

                Vou andando e olho pra trás me certificando de que tudo está em ordem. Mas o momento da despedida é difícil. Principalmente do DO-JÃO.

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Quem tem carro ou moto antiga e está longe dela sabe que tipo de conversa foi essa a transcrita acima.

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