Rio Antigo

Com certa frequência falo aqui sobre objetos e comportamentos típicos das década de 40 e 50. Exceto carros, que tenho predileção dos de 65 em diante, até 73.

E em vários outros momentos questionei o que um referido objeto, um carro ou seja lá o que for tenha passado, sofrido ou cuidado. E muitos deles foram de estimação, sendo disponibilizados por parentes após a moter dos pais, tios, irmãos, etc.

Como então podemos contextualizar uma caneta de 1942 nos anos 2000? Um Galaxie 73 em 2012? Na verdade temos é que estudar um pouquinho o nosso passado, o passado de nossos pares ou então, da nossa cidade.

Eu sou nascido em Niterói, com muito orgulho. Foi capital fluminense antes da fusão com o Estado do Rio de Janeiro, tudo isso ocorrido antes do meu nascimento. Quem não conhece, Niterói dista 13km do RJ, percurso encurtado pela ponte rio-niterói. Ou seja, quem é de Nikity vive no Rio de Janeiro. Todos os meus parentes por parte de pai vivem/viviam no RJ, mais precisamente em botafogo. Os de minha mãe, parte do subúrbio do rio, parte em niterói.

Isso me remete ao tempo que visitava minha avó, moradora de uma vila na rua Bartolomeu Portela, bucólica e simpática simultaneamente. Nesta casa, mora ainda meu tio, veretano da segunda guerra mundial, hoje com 90 anos. Desde muito pequeno eu vi, devido a diversos fatores, meu tio ignorar nossas visitas. Ele só sabia de nossa presença quando batiamios à porta e ele eram ias rápido que minha avó por algum motivo. Ele abria a porta, meu paia falava “oi tonico!” e entrávamos passando pelo quarto dele (casas geminadas de vila são assim). Eventualmente ia ao seu quarto e o via fumando cigarros continental sem filtro, assistindo “show de calouros” em uma tv Admiral P&B, mas com vidro azul na frente…

Isso tudo, no imaginário de uma criança, é um prato cheio para criar imagens, montar histórias.

Então, um dia ouvindo um disco da Alcione “Gostoso Veneno” de meu pai, ele me pediu para prestar atenção na música “Rio Antigo”, composição de Chico Anisio e Nonato Buzar. Ali eles colocavam em poucas linhas o que ele viveu, no chamado “anos dourados”  do rio de janeiro.

Algumas pessoas sequer entenderão algumas passagens da letra, magnífica, pois não tem a menor idéia do que significa Rian, Zizinho…

Assim, transponho a letra aqui e tentem se colocar no lugar deles. Não esqueçam de ouvir a gravação desse samba-canção também…

 

Quero um bate-papo na esquina
Eu quero o Rio antigo
Com crianças na calçada
Brincando sem perigo
Sem metrô e sem frescão
O ontem no amanhã
Eu que pego o bonde 12 de Ipanema
Pra ver o Oscarito e o Grande Otelo no cinema
Domingo no Rian
Me deixa eu querer mais, mais paz

Um pregão de garrafeiro
Zizinho no gramado
Eu quero um samba sincopado
Taioba, bagageiro
E o desafinado que o Jobim sacou
Quero o programa de calouros
Com Ary Barroso
O Lamartine me ensinando
Um lá, lá, lá, lá, lá, gostoso
Quero o Café Nice
De onde o samba vem
Quero a Cinelândia estreando “E o Vento Levou”
Um velho samba do Ataulfo
Que ninguém jamais gravou
PRK 30 que valia 100
Como nos velhos tempos

Um carnaval com serpentinas
Eu quero a Copa Roca de Brasil e Argentina
Os Anjos do Inferno, 4 Ases e Um Coringa
Eu quero, eu quero porque é bom
É que pego no meu rádio uma novela
Depois eu vou à Lapa, faço um lanche no Capela
Mais tarde eu e ela, pros lados do Hotel Leblon

Um som de fossa da Dolores
Uma valsa do Orestes, zum-zum-zum dos Cafajestes
Um bife lá no Lamas
Cidade sem Aterro, como Deus criou
Quero o chá dançante lá no clube
Com Waldir Calmon
Trio de Ouro com a Dalva
Estrela Dalva do Brasil
Quero o Sérgio Porto
E o seu bom humor
Eu quero ver o show do Walter Pinto
Com mulheres mil
O Rio aceso em lampiões
E violões que quem não viu
Não pode entender
O que é paz e amor

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