Itens de luxo: do útil ao fútil

No inicio do blog, postei sobre o tema canetas de coleção. Naquele momento, usei como base um correio do colega Nanael Soubaim (https://v8andvintage.wordpress.com/2010/09/30/canetas/), mostrando sua coleção de canetas, algumas réplicas, outras originais, todas devidamente acondicionadas.

Nesse ínterim, passei a observar outros itens colecionáveis vintage ou antigos, que me chamaram a atenção pela beleza, história, utilidade ou inutilidade e também por gatilhos de lembranças minhas ou dos leitores. Inicialmente eu falava basicamente sobre carros e aparelhos de som, mas com o passar do tempo percebi que outros temas poderiam ser abordados, como eletrodomésticos, relógios e desenvolver outros, como canetas e bicicletas, por exemplo.

Na medida em que lemos e assistimos algo que nos interessa, agrade, cative ou comova, automaticamente faz parte de sua memória resgatando-a quando necessário.  Esse somatório de temas aprendidos e apreendidos formam um banco de dados chamado erudição. Claro – tudo isso focado naquilo que é belo e interessante, deixando a vulgaridade na porta de entrada – daquilo que evidentemente faz chamar sua atenção.

Assim, passei a apreciar relógios, joias, canetas, bolsas, sapatos, ternos, perfumes, ou seja, itens luxuosos (o que não significa que estejam ao meu alcance). A grande questão é que, invariavelmente, você é afetado e influenciado pelo ambiente em que vive. No RJ, dificilmente usaria um relógio que custa R$600,00 andando à pé pelo centro. Em BH, o clima e a sensação de segurança permitem que você mude seu comportamento e mude sua forma de agir. Ou seja, em Roma como os Romanos…

Mas a sensação de insegurança me impedia de usar um relógio? Sim, porque não estou muito disposto a sustentar vagabundos que acham que eles são merecedores de tomar seu sonho de consumo, como se o seu mês de trabalho duro não pudesse ser recompensado. O clima é outro fator que muda substancialmente sua forma de agir e conceber sua agenda: não estou disposto a suar com o calor úmido infernal à beira-mar, fato notório para quem está acima do peso e tem de usar roupas mais sóbrias e quentes. E então, como fazem aqueles que sofrem como eu e não desistiram?  A necessidade e/ou obrigação os força a usar e manter a estética, o que não foi o meu caso até o momento.

Aliás, não estamos discutindo gosto ou exageros, pois tudo isso é muito pessoal. Também não discuto a incoerência de ter um Panerai Luminator e comer pão dormido com café. Muito menos abdicar de seus sonhos e realizações por uma vida bem simples isenta de luxo. O luxo (sem exibições) incomoda aos invejosos e incompetentes. Não se sinta mal em estar no seu carro e um pedinte bater no vidro pedindo esmola. Veja bem: seu futuro foi traçado e você fez cumprir o plano, considerando um caminho honesto e limpo. Altos e baixos fazem parte do ser humano. Cansei de ver e ler relatos de pessoas que tinham tudo e queimaram como papel. Se ele/ela não teve maturidade para manter (inclui a família), considere que ele/ela  não merecia. E porquê o seu sentimento de culpa? Tem pessoas que simplesmente não querem trabalhar e preferem viver na rua, não querem estudar, não querem ter patrão (quem odeia chefe não admite ordens), não querem ter horário a cumprir. Por outro lado, alguns foram acometidos de doenças, traição, ironias do destino e incompetência também. Então, cada cachorro lambendo a sua…

Trasladando o problema para outro sitio, assumo que meu desejo de andar mais arrumado cai por terra quando trabalho no campo. Explico: minha profissão requer que esteja eventualmente em ambientes sujos, barulhentos e por vezes perigosos e insalubres simultaneamente. Particularmente adoro estar próximo a máquinas de solda, compressores de 1350cv, pontes rolantes, geradores, ou seja, ruído e sujeira 8h/dia. Parece um contracenso querer ser elegante e cheiroso no trabalho e preferir trabalhar num site sujo e barulhento. Eu sei! Talvez um psicólogo-leitor explique.

Numa determinada época, trabalhei na montagem da Companhia Siderúrgica do Atlântico, mais precisamente na Aciaria, de propriedade do grupo alemão ThyssenKrupp. Em um determinado momento, um colega estrangeiro me pediu para visitar um equipamento específico para traçarmos a estratégia de segurança de comissionamento. Num sábado, fomos ao precipitador eletrostático, equipamento consideravelmente grande para os leigos, similar a um aspirador de pó, mas com 15 metros de altura. Num determinado momento o meu colega é chamado por alguém e para na escada para conversar. Ali percebi que ele usava um relógio TAG-Heuer Carrera, modelo que estimei imediatamente custar mais de R$5000,00. Fiquei pasmo de ele usar um relógio daqueles naquele ambiente, passível de arranhões, esmagamento, além da influência de campos magnéticos.

Num momento mais calmo, falei com ele que gostava também de relógios e perguntei se aquele ambiente não seria um pouco perigoso para usá-lo. Imediatamente tive a resposta: aquele era uma réplica chinesa de US$ 200,00 mas que mantinha o mesmo modelo original guardado na gaveta do armário de sua casa na Áustria. Ele me pediu para que não espalhasse isso, pois muitos ali usam modelos mais caros e originais no mesmo ambiente… Ou seja, tem gente disposta a usar o bem desejado em qualquer lugar, pagando talvez alto preço para isso.

Eu, por exemplo, não sou adepto a réplicas, que algumas vezes é usada como uma palavra politicamente correta para dizer falsificação. Tudo porque, se você gosta tanto do modelo, você deveria ao menos se esforçar para tê-lo do meio correto, não por atalhos. Richard Burton, ex-marido da Elizabeth Taylor dizia que era preferível dar ouro como presente, pois num momento de “dureza” poderia se desfazer das joias. Óbvio que nunca precisou. Mas esse é um fato a ser considerado, pois quem está na bonança deve se preparar para pobreza. Se um dia precisar penhorar uma joia ou relógio, o avaliador da CEF vai gargalhar quando você despejar a sua coleção de Omega e a coleção de bijuteria de sua esposa. Eu não reprovo quem tem réplicas, mas acho que o esforço para ter o original tem uma recompensa maior quando possível. Se é possível comprar uma Parker 51 original usada e revisada por R$350,00 , porque então você compra a réplica no Mercadolivre por R$15,00? Se existe e nem é tão cara assim, talvez você devesse estudar essa possibilidade.

Sim. Jóias, relógios e canetas pode ser sua caderneta de poupança ou boia salva-vidas.

O que também não podemos ignorar é o método adotado para a fabricação das falsificações. É notório que muitos desses produtos oriundos da China, Taiwan, Vietnan e Sri-Lanka usam o trabalho escravo. Não falo de pessoas que sofrem chicotadas ou tem bolas de ferro amarrada aos pés; trabalhadores que trabalham em condições abaixo do padrão, conforme divulgado pela OIT (Organização Internacional do Trabalho). E o Paraguai, onde entra? O maior entreposto de produtos ilegais da America Latina tem mais fábricas de cigarro que o Brasil! E porque não fabricam as próprias marcas, ao invés de falsificar Benson & Hedges, Dunhill e outros? Porque tem gente que prefere usar o falso e mostrar a todos o que tem, do que fumar cigarro com marca em espanhol (esqueçam as marcas “Simidão”e “Dosotros”). Não ache também que o brasileiro é vítima e que os outros são maus. Aqui a Polícia Federal prendeu incontáveis vezes confecções de roupas que usam Bolivianos em condições sub-humanas. Como dizia o personagem da Kate Lira no programa “Viva o Gordo”: brasileiro é tão bonzinho…

Some:

  • ·         Impostos sonegados;
  • ·         Não pagamento de direitos autorais;
  • ·         Pirateamento de propriedade intelectual;
  • ·         Corrupção policial;
  • ·         Custo inferior por não ter criado absolutamente nada, só copiado;

 

Outro fator que se soma a desejos ocultos são as opiniões e influências das pessoas mais próximas. Uma delas foi meu irmão que além de jornalista (veja seu blog HTTP://encouracadopotengi.blogspot.com), músico e colecionador de cd’s e lps, também é amante dos relógios. Por motivos óbvios, você ouve e assimila tudo aquilo que um ente próximo (mesmo a 9h viajando de carro) lhe diz, mesmo que não seja de seu interesse. Ele, que não tão recentemente descobriu o que há em torno da alta relojoaria, passou a adquirir exemplares, mas sempre próximo de onde sua mão alcança. Pelos motivos mais diversos, ele me deu alguns de seus exemplares, que os guardo e uso com muito carinho. Até porque, sempre fiz muita questão de manter aquilo que herdei, como maior esmero possível, pois esse é o desejo do doador; por isso fui o escolhido.

Nos próximos posts, falarei sobre meus relógios (herdados e comprados, vintage e modernos), além de canetas de escrita fina.

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