Idéias do Canário

Esse conto escrito por Machado de Assis no século 19 me faz pensar sobre algumas escolhas nossas. O texto me foi apresentado em uma palestra, na qual falava sobre comportamentos e escolhas, bem como a opinião que pode mudar ao sabor do vento.

Lá, o filósofo conversa com um canário, adquirido em uma loja de usados (chamado de belchior), impressionado como ele poderia cantar em um ambiente tão nocivo a um pequeno ser.

Comprando-o da loja, o homem passa conversar com o canário sobre as mais diversas questões – inclusive sobre a visão de mundo. O que impressiona é a opinião forte do canário quando contestado e questionado, mostrando erudição ao falar sobre o tema, mas uma limitação sobre horizonte, ou seja, sobre o que há além do seu campo de visão.

No momento em que o pássaro foge, o dono pensa que ele não saberia como sobreviver num lugar que ele sequer imaginava existir. Ao passar sobre uma árvore, o canário o encontra o homem e, novamente, questionado sobre a definição de mundo. Surpreendentemente o pássaro lhe dá uma nova definição, igual à do dono, que o faz negar o passado onde esteve.

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Esse conto cabe no tema de aparelhos vintage. Alguns donos de equipamento hi-end tem o costume de negar o passado e dizer que, tudo aquilo que usou até este momento é ruim; o atual é que é bom.

O passado destes homens parece ser vergonhoso, pois adotando conceitos completamente diferentes, tem o costume de comparar aparelhos e propostas completamente diferentes, criando uma enorme distorção. Alguns, inclusive, ou não tem coragem ou fizeram questão de apagar da memória seus setups quando iniciaram o hobby. Passa a impressão de que não trilharam o caminho mais comum entre os hobistas, já atingindo o ápice (que não existe) do conhecimento.

Outra característica muito comum a estes hobistas é de que o novo aparelho/componente é melhor do que o anterior, inclusive desprezando-o. Essa é a maior armadilha de nossas mentes: acostumar com um padrão. O novo, invariavelmente parecerá melhor do que o anterior, como se isso fosse verdade; o novo parecerá mais bonito que o anterior; o preço do novo é justificado com predicados apontados pelos reviewers, donos de loja o pelo próprio fabricante. O primeiro é tão amador quanto nós, mas sobre a maldição do “jabá”: aquele patrocínio oculto, obscuro. Os dois últimos nunca vão dizer que o produto versão b é pior que o a. Senão pra quê abrir a loja?

Dificilmente os usuários ou hobistas fazem testes comparativos a/b nos componentes e aparelhos. Quando fazem, não conseguem manter as características do ambiente idênticas em ambos os testes. Metodologia? O que é isso? Aparelhos de medição? Meus ouvidos estão calibrados (com cerume ou alcool ingerido)…

Qual o problema de falar do passado? Como quase toda a família teve um fusca, porque não admitir que começou com um 3×1 National/Sharp/Telefunken, receiver Unimack, caixas Yang…

Fora isso, o problema de alguns foristas/hobistas se esconderem atrás de um nickname ou avatar, ofendendo e cuspindo sobre pessoas que estão hoje trilhando o caminho no qual tropeçaram muito na vida. Esse é o problema do virtual.

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2 opiniões sobre “Idéias do Canário

  1. Ah, eu sei o que é isso, e como sei! Desde gente bradando (com maiúsculas) que “Fusca não é carro e todo mundo sabe disso” até um primo quase me batendo, quando eu disse que um motor moderno pode atingir potência máxima acima de seis mil giros, só porque ele não consegue imaginar frequências tão altas, essa gente de internet já me aporrinhou com tudo. Nenum saberia diferenciar o seis canecos do Opala de um transversal do Astra, se estiverem fora dos respectivos.
    Acontece que o relativo (não inexpugnável) anonimato de um avatar permite que o cidadão pacato externe tudo o que poderia causar demissão ou condenação judicial na vida real. Eles não querem realmente saber se há uma pessoa do outro lado, querem encontrar o desafeto, chamar a turma para um bullying cibernético e depois dispersá-la com a mesma facilidade com que a reuniu. Isto inclui a famigerada patrulha do politicamente correcto, que transformou uma boa idéia em um modo re repressão de expressão. Não lêem, como os outros, tudo o que se diz, só os trechos que lhes interessam. Argumentar, mesmo com dados técnicos sólidos, é inútil, o achismo envaidece e prevalece. Depois jogam na tua cara que tu disseste aquilo (mentindo usando a verdade) e que portanto não podes reclamar, sem se importar com o resto.
    Da próxima vez diga, “Aham, tá. Pense como quiser” e saia. Deixe o outro cantar vitória com seu troféu de papelão, ele não vale à pena.

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